Saí do metrô e vi a escadaria que teria que subir. Calma. É sua última semana, Jorge. Depois, passará o resto do ano trabalhando em casa, sem pegar sol, falando com as pessoas do estúdio apenas pela Internet. – não, isso não me animou. Eu sentirei falta de todos lá, e eu nunca fui de reclamar do calor. Apesar de preferir o frio.
Já estava na parte alta, agora era só descer o mesmo tanto de escada do outro lado para se chegar lá. Vi uma mãe, carregando uns pacotes grandes, suando pra diabo, tendo que prestar atenção neles, e no filho, que caminhava ao lado. O garoto estava calmo, não havia motivo para agitação, mas é mãe, fazer o quê?
Eu, com tanta coisa na cabeça, resolvi observá-los para ver se mudava um pouco o assunto dos meus pensamentos. Eles iam alguns degraus a minha frente e o garoto dizia:
- Mãe, o pai vem pro carnaval?
- Não, não vem.
- Então, vamos só nós três pra casa da vó, Mã??
- Não, só nós dois, já disse que seu pai não vem. E nem sei se agente vai mesmo.
O menino descia ignorando o suor que escorria pela testa.
- Se formos, a vó vai deixar a gente brincar com o Pedro, Mã?
- A gente não, filho, você e o Pedro podem brincar na horta, isso se ele não estiver ajudando seu tio.
- A gente espera na horta brincando até ele acabar de ajudar.
- Eu vou ajudar a vovó, filho. Isso se ela quiser minha ajuda, droga!
- A gente espera mesmo assim.
- Tsc.
Ela tentava enxugar o rosto com a manga, equilibrando o pacote, enquanto olhava onde seus pés pisavam na descida.
- Não fica assim, Mã, o papai não ta aqui, mas a gente não quer ver você assim...
- A gente quem??? Por que você fala isso toda hora??? A Gente quem??? Tem alguém aqui, droga????
- Sim. A gente. Eu, você e o sol.
Durante uns bons dias não reclamei mais de nada.
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