Leve diferença.

Suzana acorda todos os dias com a mesma cara. Ela não faz idéia de que todas as mulheres acordam todos os dias assim. Ela acha que acorda diferente.

Não fosse o bastante, ela se acha diferente. E nessa certeza, e hoje ela preparou algo novo para fazer.

Levanta-se, e faz tudo o que se faz de manhã, com a convicção de que sua maneira de escovar os dentes é especial. Lava-se, maquia-se, e posa para os espelho do armário vitoriosa. Sentindo-se bem em seu terninho azul marinho, - para ela, é única que fica bem em terninhos azul marinho - enfia a mão entre as roupas penduradas e saca do fundo um violão. Encosta-o ao corpo, elevando-o junto ao peito e torna a se olhar no espelho para mais um suspiro de satisfação.

Tomado todos os cuidados que faz dela uma mulher melhor que as outras, sai de casa segurando o instrumento pela alça da capa que o reveste, e se dirige ao ponto de ônibus. Lá, toma o Terminal Santo Amaro, e desce na Brigadeiro Luís Antônio, nas mediações do viaduto.

Durante todo o trajeto trazia consigo o sorriso das pessoas felizes, de bem com a vida, decididas, e claro, diferentes. Sobe alguns quarteirões a pé, atraindo os olhares populares, mais acostumados a ver negros, índios, baianos, enfim, brasileiros, por aquelas ruas. Uma executiva, de pele clara, cabelo preso com coque que brilha ao sol, lábios e olhos delicados a europeu, já chamaria a atenção, mas ainda assim ela sorri a todos sem olhar nos olhos, como se o fizesse todos os dias. Poderia até se passar por uma funcionária da Avenida Paulista, perdida, ou à procura de um pingado com pão-na-chapa de verdade. Mas esta opção é descartada, levando-se em consideração que a mulher traz consigo um violão.

Suzana estava realmente destoando dos demais, talvez não da maneira como ela tinha plena consciência, mas tudo bem. E aglomerou mais pessoas a sua volta, quando finalmente chega ao destino. Vira em uma das travessas da Brigadeiro, e logo na esquina contempla um botequim encardido, com três portas de correr. À direita dessas, existe outra, menorzinha, de grade ornamentada e antiga, revelando uma escada de batente com formas iguais à grade, que dão acesso ao andar superior do botequim. Desse andar, só é possível ver as janelas de madeira fechadas, mais parecendo mortas, sobre o bar.

Ela sorri para as janelas, depois olha pelo chão a sua volta à procura de algo. Pega uma caixa de um verdureiro que estava próximo, posiciona-a em direção ao velho sobrado. Coloca o pé direito sobre caixa, e apóia o violão na coxa, firma-o no corpo, fecha os olhos e engole saliva para limpar a garganta. Finalmente levanta as pálpebras docemente, para começar a cantar e tocar uma linda melodia.

A multidão parecia não se importar com o sol forte. O que interessava ali era ver a ‘bonitona esquisita’, como cochicharam por ali, tocar seu violão, contemplando as janelas de madeira mal pintadas do andar de cima do bar. A música acabou e as palmas vieram aos montes. Quando todos esperavam a continuidade, ela sem tirar os olhos das janelas, e sem perder o sorriso, sentou-se sobre a caixa e abraçou o violão.

Ao verem que não haveria bis, as pessoas jogaram algumas moedas e dispersaram-se. O céu, que tinha um azul parecido com o seu terninho, inclinou-se para um roxo mais avermelhado, até que escureceu totalmente. Suzana ficou nesta posição noite toda, sem tocar mais nada. Estava esperando a janela se abrir. Haviam poucas pessoas na rua e nem olhavam mais para ela. E depois apenas ratos e baratas povoavam as sarjetas. Mas nada parecia abalá-la.

Muito mais tarde, chegou um rapaz com uma chave na mão. Empunhava-a na posição de abrir a portinha de grade ornamentada. Ele para, se volta e vê a garota. Ela o olha, enche o peito de ar, e o rosto de alegria. Corre eufórica, e se mostra dos pés a cabeça. Segura o violão da maneira como o fez de dia todo. E assim fica, esperando sua reação.

O garoto fica alguns minutos, estático, olhando-a. Na verdade mais para a pose de Suzana, do que para ela propriamente, e depois de observar a rua em volta, ver o caixote e imaginar tudo o que acontecera ali, cai em uma descontrolada gargalhada.

Se alguém apostasse dinheiro alto de que Suzana não mudaria sua expressão hoje, ou melhor, nunca mais, perderia o montante. As feições da moça foram mudando levemente na medida em que a gargalhada dele se intensificava. A princípio ficou surpresa, mas depois desiludida. Alguns segundos e já estava pensativa, e depois, finalmente, maligna.

O rapaz demorou a percebê-la assim, e quando a viu, teve medo. Mas não poderia imaginar que Suzana fosse capaz de algo, afinal, ela é uma mulher comum, certo? Mas ela não achava isso, e decidiu ter um dia diferente.

Agarrou-o pela cabeça subiu as escadas, puxando-o como um casal das cavernas às avessas. Os gritos não a incomodavam, e parecia até dar-lhe prazer. Chutou as portas até chegar a um quarto. Encostou o violão delicadamente em um canto, e jogou o rapaz violentamente contra a cama, arrancando desta antes os lençóis. O menino, totalmente apavorado, era incapaz de fazer algo contra, e não se moveu enquanto ela foi até a janela rasgando os panos com as mãos. Escancarou as duas metades de madeira podre até baterem na parede, virou-se, e sua sombra pairou sobre ele que chorava como um cãozinho.

Na manha seguinte, quando os primeiros bares e lojas começaram a se abrir e a rua se movimentar, encontraram Suzana na mesma posição de ontem. Estava com a perna sobre a caixa, e o violão apoiado à coxa. Fechou os olhos, limpou a garganta, e levantou as pálpebras docemente para o rapaz que estava amarrado com os lençóis preso à janela, nu e aos prantos, para começar a cantar e tocar uma linda melodia.

Êxitos e Segredos

O rapaz aparentava 28 anos. Era alto, tinha cabelos negros, e usava uma jaqueta jeans. Andava pela calçada de uma movimentada rua, com vários restaurantes, que desembocava numa pequena praça, regada de crianças, pombos, velhos e mais crianças.

No seu caminho, havia um daqueles suspeitos carros de yakisoba estacionado. Parou diante dele, pensou, voltou-se para a porta de um dos restaurantes e leu o cartaz que dizia: ‘100g R$1,30’ Pouco depois continuou a caminhar degustando um suspeito macarrão chinês de um suspeito chinês.

A moça tinha jeito de 25 anos. Sua estatura mediana destacava as curvas do corpo, e fora abençoada com cabelos claros, e sardas no rosto. Vestia uma lã branca com gola comprida e jeans.

Estava parada diante de uma banca de jornal, mas não olhava nada. Sua mente divagava. Uma hora, deu-se conta da realidade e passou a mão no rosto, como se o lavasse. Pegou uma revista, pagou-a e foi até a esquina em frente à praça. Lá, folheava o material ao acaso, sem ver nada, enquanto esperava o sinal abrir para os pedestres. Quando o homenzinho verde apareceu, atravessou a rua e a multidão que vinha de encontro, como se estivesse só no mundo.

O jovem atravessou a rua dando a última garfada em seu almoço, e chegando do outro lado, jogou a embalagem no lixo próximo a banca de jornal. Apanhou o maço de cigarros no bolso esquerdo da jaqueta e tirou uma unidade. Acendeu-o com as mãos na frente para barrar o vento e ficou ali parado, olhando a praça do outro lado da rua. Como se não houvesse onde por a mão livre, levantava-a freqüentemente a altura do peito para ver as horas.

Foi só passar a vista pelo relógio, que a garota se lembrara que esquecera algo. Seu semblante não deixava crer que estivesse satisfeita. Tinha as mãos à cintura em sinal de aflição, depois à cabeça, na certeza da dúvida. Não sabia se seguia o caminho que fazia para longe dali, ou se ficava onde estava, deixando a eternidade decidir. Optou por cruzar os carros e adentrar a praça.

Deu o último trago no cigarro, e jogou-o na lixeira da praça. Observava o céu claro em meio às árvores, enquanto soltava a última porção fumaça pela boca. Observou um banco, onde um senhor sentava-se ao meio, apoiando as mãos numa bengala. O rapaz sentou-se ao lado esquerdo dele, e do jeito em que se acomodou ficou, com a expressão inerte que trazia o dia todo.

Alguns segundos depois, a moça cruza pelo banco, e senta-se ao lado direito do senhor. Apóia o queixo nas mãos, que ainda segura a revista, e os cotovelos nos joelhos.

Passou-se um tempo onde ninguém se moveu. Finalmente, o velho esboça reação: olha para o jovem, e depois, numa rotação lenta vira a cabeça para a garota. Trás o rosto para a posição inicial vagarosamente, repete a operação, e ao final, sorri. Com algum esforço levanta-se, e retira-se de cena levando embora seu sorriso, deixando-os a sós, aos modos de um filme antigo.

Então, como se tivessem combinado, entreolharam-se. Depois, voltaram a fitar o nada, sincronicamente. Silêncio. Não, minto. Pombos e crianças ocupavam o som. Com esta trilha sonora, olharam-se outra vez. Um burburinho de uma pomba não os afetou, mas bastou uma menininha despencar do roda-roda e cair no choro, para que os dois se agarrassem ferozmente. E onde um desavisado diria tratar-se de uma briga conjugal, nada mais era do que o início de um longo e molhado beijo.

O incêndio dentro deles não deixou espaço para as palavras. Nem no banco da praça, nem na rua a caminho de casa. Muito menos no elevador do prédio. Até a porta do quarto chegou a soltar lascas com a força aplicada sobre ela, mas mostrou-se um inexpressivo modo de reclamar atenção.

Assim, a noite mergulhou entre os prédios e abençoou a cidade.

Ele olhava pela janela e fumava muito. Estava claramente satisfeito com o que lhes acontecera. Atrás, o quarto estava iluminado apenas pelo seu abajur, e do outro lado da cama, ela se cobria com o lençol. Não mexera um músculo desde que terminaram. Não tirara os olhos do teto. Não falaram uma palavra sequer.

Ele ousou:

- Meu nome é Pedro.

Não houve resposta. Baixou a cabeça, deu mais um trago, e tentou novamente cordialmente:

- Então, qual o seu nome?

Nada. A moça serrava os olhos, e engolia seco. Apertou o lençol entre os dedos e virou-se para o lado oposto. A tristeza dominou o rapaz que suspirou e foi em direção ao leito. Depositou a ponta do cigarro no cinzeiro ao pé do abajur e ajeitou-se sob o lençol. Apagou a luz, não sem antes tentar ver as costas da moça que se contraia ao seu lado.

A noite cedeu aos raios de sol e quando os primeiros brilhos adentraram o quarto, a moça já estava com os olhos abertos. Na verdade, ela não os fechara a noite toda. Sentou-se na cama, e observou Pedro. Cruzou os braços abraçando-se, e mordeu o lábio inferior segurando o choro.

Levantou-se, enxugou as lágrimas e depois de vestir-se parcialmente, caminhou pelo quarto. Passava as mãos delicadas pelos móveis e sobre os objetos da estante, onde demorou um pouco.

Depois, terminou de colocar sua roupa, e foi em direção à porta sem fazer barulho. Abriu-a calmamente, e virou-se para ver o rapaz uma última vez com os olhos nitidamente vermelhos. Baixou a cabeça, soluçou e partiu. Foi embora deixando pouco. Apenas seu cheiro pelo ar e um papel aos pés do abajur escrito ‘Luciana’.




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