Por uma poesia
O poeta um poema produzia
Seu coração a poetiza pertencia
E parando, ponderando, percebia,
Que a paixão ‘Peri Ceci’ permanecia.
Fez para ela poesia.
Porém, ela em posse de um punhal
Parou-o no teu peito, puro mal
E ele pôs-se a chorar em agonia.
-Por quê assim procedes?
- Posso te beijar?
-Permita-me tua pele poder tocar.
Só então, a Poetiza,
Profundamente arrependida,
Relendo o que por amor ele escrevia,
Compreendeu perfeitamente o que dizia.
Oi, Mãe.
Eu? Ah, estou bem.
É, não se preocupe... e vocês como estão?
Certo. Não, está tudo bem mesmo. Ora, mãe, minha voz sempre foi assim.
Só estou um pouco cansado.
Sim, agora eu estou me alimentando direito... não, não estou usando drogas...
O quê? Ah, mãe, isso não é pergunta...
Isso vamos mudar.
É, tá legal sim, começou essa semana, prédio novo e tudo mais...
mas ainda não consegui um emprego.
Eu tô tentando, eu tô, você sabe, não sabe?
Claro, você não está vendo, mas por quê não acredita e mim?
Sei lá, achei que as mães confiassem nos filhos...
tudo bem, eu sei que você não quis dizer isso...
Sempre acontece comigo.
Isso, de dizer algo, e tal...
...isso, e depois ter que dizer que não foi isso que eu quis dizer...
Já falei que não há nada com a minha voz.
Ah, ela é legal sim...
Ah, isso já não é da tua conta...
Você não amou?
Então, olha que bela família você tem.
Pois é, o caçula saiu meio bobo, vocês tinham seus defeitos...
...e eu estou descobrindo, ou revelando os meus...
Oi? Ah, nada, não disse nada.
Isso? é Blues...
Não, pô, já falei que não estou triste!!!
Eu estava desenhando... não, não é pro filme.
Também não, começou essa semana, né?
Ah, é pra mim, quer dizer..
Pra mim é importante.
Não, não estou ganhando dinheiro, mas posso fazer o que eu gosto?
Por que não tenho emprego, droga!
Droga, droga, se eu não desenhar como é que você quer que vejam meu desenho??
Dá pra parar com isso??
Não, não estou te criticando, isso daqui tá parecendo uma música do Pink Floyd!
Ninguém, esquece...
Para.
Tudo bem, não foi nada,,, só esperava que pelo menos você entendesse minhas palavras.
Não, tem gente que me ouve sim. Claro que tenho amigos, mãe.
Sei lá...
Não é nada.
Não quero falar disso com você.
Pois é, né? Você deveria ser a pessoa com quem eu gostaria de falar disso.
Por que você não entende, pô!!
Um dia...
É, já tá na hora.
Tchau, um beijo..
Te amo.
A bença, mã...
[Érika e Jorge folheiam alguns zines. O rosto dela está escondido, mas pode-se ver a cabeça. Ele está compenetrado.]
[Jorge põe o que lia sobre a mesa e fica com um olhar sonhador pro vazio. Érika continua na mesma posição.]
Jorge – Ô, Érika... [Chamando-a, ainda com o olhar fixo no nada e ela ainda lendo], Érika,.,
[percebe que ela não ouve e grita], ERIKA!!!
Érika – Hã? Oi? Quê?[ como se estivesse voltando à terra. ]
Jorge – Já sei o que quero fazer da vida! Vamos fazer um fanzine???
Érika – Você quer fazer um fanzine da vida?
Jorge – Não, mas por algum lugar nós temos que começar, né??
Érika – Putz, esse zine está só no papo desde a exposição Udigrude no SESC!
Jorge – Mas então, o que acha??
Érika – Ah, legal! Só a gente?
Jorge – Não, vamos colocar mais pessoas! Nós vivemos cercados de desenhistas!
Érika – Nossa, então vai ficar grande...
Jorge - É mesmo. E num dá pra sair cobrando logo de cara...[revirando os bolsos]
Érika – Ah, a gente põe um parceiro de cada vez, oras!
Jorge – Ótimo, assim dá pra investir no material e na impressão!
Érika – Num vai ser xerox?
Jorge – Ah... bem, num sei... [disfarçando]
Érika – Você e sua megalomania! [provocando]
Jorge – Num é isso, Érika, [cabisbaixo] ...é que vai contra meus princípios.
Érika – HAHAHAHA! Jorge, é só um zine!!!
Jorge – É Quadrinhos! Mais respeito, hunf!
Érika – [chorando de rir] Agora vem discurso!
Jorge – Pense bem, Érika. Nós sabemos que nem todo mundo tem outra opção além do xerox. Mas ninguém é menos feliz por isso, pelo contrário, já vimos histórias incríveis em fotocópia.
Érika – Então! Por que não fazemos assim?
Jorge - O problema é que quem percebe essa riqueza somos nós, que acordamos e dormimos pensando em quadrinhos. Eu não quero produzir só, e somente só, para este público. Quero mostrar ao grande público em potencial, que HQ é tanto arte quanto profissão, e como tais, deve ser levado a sério!
Érika – E qual o problema do xerox nisso?
Jorge – Se nós não levarmos a sério o nosso próprio modo de vida, com desenhos bem trabalhados, roteiros bem pensados, e claro, material de qualidade a oferecer, como esperar que esse grande público nos leve?
Érika – Mm, estou entendendo. Se as pessoas já têm preconceitos com os gibis que estão nas bancas, imagine com um amontoado de folhas xerocadas. [com um ar pensativo]
Jorge – Fazer com calma e bem feito, é acima de tudo, amor por Histórias em Quadrinhos.[com cara de mala]
Érika – Até pra quem já é leitor, assíduo ou não, isto é importante! Imagino que ao mesmo tempo em que somos motivados pelos grandes quadrinistas, eles são motivados por verem tanta gente querendo começar. Se eles recebem pilhas de fanzines para conhecer este povo, uma publicação bem feita faz a diferença!
Jorge - E eleva ainda mais o nível das publicações nacionais! Mas para tanto, devemos trabalhar muito. Não basta uma boa impressão, o traço tem que ser sincero e convincente. Os roteiros precisam ter conteúdo e coesão.
Érika – Perfeito! Então qualidade é a nossa meta!
Jorge – Vamos começar! [começam a rabiscar ]
Érika – Nossa, isso vai demorar...
Jorge – Ah, temos todo o tempo do mundo!
Érika – E nenhum editor pra cobrar prazo!
Jorge – Por enquanto, hehe!!
Érika - Megalomaníaco!!!
Jorge – Num é verdade! Eu gostaria de um editor mandando refazer tudo uma semana antes da data final, íamos aprender bastante.
Érika – Você sonha demais, Jorge. [ o zoom vai se abrindo gradativamente até o último quadro.]
Jorge – Érika, todo profissional da nossa área é um sonhador.
Érika – Quem lê pensa somos grandes desenhistas, neh??
Jorge – Sonhadores, Érika, sonhadores.
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