Ode ao Pão na Chapa

Eu tinha plena convicção de que falava sozinho todas as manhãs.

Mas hoje cedo observei que, na verdade, eu não estava sozinho: este tempo todo eu falava com o pão na chapa.

A princípio, admito, pensei que estivesse louco. Depois percebi que falar sozinho não é assim tão normal, e se o pão na chapa era meu, e logo mais eu o teria em meu café da manhã, concluí ser razoável desabafar com o próprio enquanto lambuzava-o de manteiga.

Agora peço licença aos leitores, pois vou continuar minha ode diretamente ao pãozinho besuntado diante de mim.

Sabe, ir comprá-lo hoje na padaria, voltar, fazer o café para acompanhá-lo, e agora fitá-lo desta maneira me fez pensar sobre a vida, e meu papel no mundo.

Você me entende, pão. Quer dizer, és mais compreensivo que os seres humanos. Você não é um ser inanimado, pois retribui tudo o que faço por ti. Compro-o, selecionando-o entre os mais clarinhos, que são de minha preferência, e você retribui, mostrando-se apetitoso até o momento final do nosso relacionamento. Corto-o delicadamente para não lhe desfigurar, e você se abre, mostrando toda a beleza que há dentro de ti. Sirvo-lhe da melhor margarina que pude comprar, e você ainda quentinho, derrete-a para mim.

Veja os seres humanos: Eu tentei amá-los, juro. Mas cada vez mais me sinto como se não fosse um deles. Eu os seleciono sim. Mas sem excluir ninguém, pois não tenho este direito. Dentre tantos, me é permitido querer estar com as pessoas que gosto, não é? Afinal, por que trazer para sua vida quem não lhe faz bem? Mas eles não correspondem como você. Causam uma indigestão em nosso convívio, pois não se mostram belos e saudáveis até o fim. Parece que temos que viver armados de digestivos, preparados para nos defendermos de algum Judas na eminência da traição. Você nunca me traiu.

Quando fico a disposição da pessoa para entendê-la, no caso dela querer ser entendida, espero que seja como quando o corto com carinho, e você me oferece o miolo. Mas não. Os humanos nunca estão dispostos a se abrir como tu. E quando fazem, não oferecem coisas boas. Mas é por que não querem, sabe? Eles têm coisas maravilhosas dentro deles, têm sim. Por isso os amava tanto.

Nunca um humano ouviu e acolheu o que eu tinha a dizer, como você recebe e absorve minha margarina. Os humanos esquecem no dia seguinte, mas você não. Alguns segundos depois, e ainda está molhadinho, salgado, como se cultivasse tudo o que passamos juntos. Você é um bom amigo, pãozinho.

Não pode ser comparado nem as outras criações humanas, pois você está acima delas. Suspeito até que você tenha surgido antes do homem. Observe um computador. Ele não age como você. Digo, a verdadeira importância na amizade está nas pequenas coisas. Eu sou péssimo em tratamentos, comprimentos, pedidos de favores, mas acredito que meus amigos saibam disso, e entendem quando eu erro. Desta forma tento entendê-los também, mas não agüento mais tanta gente nesta situação e eu com a dúvida: Fui eu? Foi ele? Precipitei-me? É só o jeito dele? Um computador é ingrato por natureza! Não me venha com a desculpa de que o computador é uma máquina: eu estou conversando com um pão francês neste momento, o que faz aquele argumento cair por terra.

Eu também comprei o computador, limpei-o e alojei-o no melhor lugar de minha sala. Ofereci-lhe os melhores programas que tenho, segundo a sua capacidade, e ele nem agradece! Não estou falando de dar pau no sistema e coisas do tipo, mas sim do fato de ele nem se esforçar para ser educado. Veja, eu acabei de instalar um leitor de dvd, e ele diz: seu computador será reiniciado ao final da instalação. Que negócio é esse? O problema não é a reinicialização, mas o modo como ele diz isso! O que custa falar: “Olha, eu preciso arrumar umas configurações aqui, tudo bem se eu me reinicializar?” Ou, no mínimo “Fodeu, cara, já venho!”.  Entende? O mínimo de consideração. Bom é você que não fala nada. Tem horas que é melhor ficar quieto.

Você, pão, tem os seus defeitos. Mas eu aprendi a apreciá-los, eu me esforcei, e hoje quase nem lembro deles! Claro, prefiro os branquinhos, mas mesmo quando você está torradinho continua sendo meu amigo. Eu mesmo boto fogo em nossa amizade quando o esquento na chapa. E você reclama? Não, ao contrário, fica crocante para mim. Isso é que é amigo, cara.

E por isso, acredito que também goste de mim, afinal, todas as manhãs estamos aqui, conversando, e você me acompanhando pelo resto do dia: no trabalho, na porção de calabresa do happy hour, e na hora de me deitar.

Obrigado, amigo.




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